TIAGO RIOS FAGUNDES
Magnitsky parece que é o super trunfo da censura. O espadão. O Zap. O Coringa +4.
Se foi merecida ou não sua aplicação ao Min. Alexandre de Moraes é outro papo.
A lei, que até hoje havia sido aplicada apenas contra ditadores e genocidas, agora recai sobre um brasileiro.
Sim, ele nasceu em hospital comum, vibrou quando Baggio perdeu o pênalti, estudou em faculdade regular, tomou pinga e pitou na sexta-feira, prestou um concurso, depois outro, e assim — graças às graças que a vida graciosamente às vezes nos agracia — ocupou um dos cargos máximos do judiciário brasileiro. Contudo, no pleno gozo de seu vigor e força, defendendo a democracia, foi sancionado pelo Presidente americano. Um brasileiro sob Magnitsky… é “nóix”! Ele deveria se orgulhar do feito.
Muito improvável, entretanto, que ele tenha planejado tudo. Foi, no vácuo, tomando as medidas que o chefe precisou ao longo do tempo, fazendo o trabalho sujo, criando novas jurisprudências no processo e maculando ainda mais a já desgastada imagem do tal poder moderador.
Alexandre, para os íntimos, reinventou a Constituição — que, convenhamos, lá também não é grande coisa — para atender a interesses que parecem escusos, sempre com o endosso dos seus colegas de ofício e o apoio (ou o comando) do que podemos chamar de “deep state” brasileiro, ou de centrão mesmo, conforme o gosto do freguês.
Através de malabarismos retóricos e interpretações criativas da Magna Carta, somados a notícias falsas e investigações parciais que deram lastro ao espetáculo, cidadãos foram condenados com penas obviamente excessivas por crimes que não cometeram. Provas cabais de inocência foram ignoradas e criou-se, inclusive, uma figura até então inédita — e bizarra — do Ministro “Bombril”: que acusa, investiga, julga e pune, tudo isso sentado na cadeira da vítima. O homem é polivalente mesmo.
Xandão, para os chegados, deve ser boa gente. Ontem, dia 30, foi visto no jogo do Corinthians e Palmeiras. E, já conformado com a derrota, fez o óbvio: mostrou o dedo do meio. Devemos condená-lo por mais esse excesso? A essa altura, estamos carecas de saber que ele realmente pensa estar protegendo as tais instituições democraticamente constituídas. E isso, embora hilário, nada mais é do que reflexo de sua identidade atual, forjada sob a toga — e sob um total de zero bulbos capilares ativos.
Xandy, para os amigos de infância, pensa ser o próprio “Malvado Favorito”, aquele que toma decisões difíceis “pela causa”, enquanto a caravana ladra e ele se posta como guerreiro incansável de uma batalha ingrata. Agora, punido por um recém-apresentado inimigo bem mais forte, entra em cena o inevitável “coitadismo”.
Entre todos os signos presentes nessa epopeia brazuca, o do mártir é o mais cortejado: o legalista perseguido, o jornalista exilado, o presidente preso injustamente, a manifestante condenada por pitar com batom — agora, o juiz sancionado. Nesse mar de narcisismo, todos querem ser vítimas. E o mais espantoso: todos acreditam piamente nas histórias que eles mesmos criam, que o coleguinha da carteira do lado confirma, sobre suas grandes atitudes, suas condutas irrepreensíveis, seus propósitos elevados. Ignoram ou distorcem fatos para criar o mundo em que sua história “cola”.
Olavão, grande mestre pitador contumaz e talvez a mente mais brilhante que este Brasil pariu, chamava isso de paralaxe cognitiva: o fenômeno em que o indivíduo distancia a forma como percebe algo da realidade da experiência. É canalhice intelectual no seu estado mais puro.
O Ministro Cabeça de Ovo, para seus detratores, mereceu a Magnitsky? Quem sabe. Mas talvez a pergunta mais pertinente seja: Ele fez tudo isso sozinho? Ele é o ditador do Brasil? Ou seria apenas uma ferramenta útil, servindo a um propósito totalmente distinto do que nos é mostrado? Vamos ter um canavial de Magnitskys, ou só estamos recebendo o “melzinho” pra cessar o choro enquanto a boiada segue passando?
Apesar das comemorações no país e das Möet Chandon estouradas por Allan dos Santos (de onde ele está exilado desde o governo Bolsonaro — pois é, né?), precisamos avaliar se essa patuscada toda soluciona algo para as reais vítimas: aquele que vai pagar o preço das taxas do laranjão, do desvio do INSS e do IOF que hoje vigora.
O circo é global. E o pão, cada vez mais escasso





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