Entraram na minha sala. Diante da minha mesa, o filho sentou com a mãe. Ele, silencioso. Ela, preocupada. A mãe contou do filho. Disse que ele tinha autismo, mas que era leve. Lembrou que o filho também tinha dislexia, contou da sua dificuldade em socializar e em demonstrar afeto. Falou que há quatro meses, ela vinha todos os dias com ele até a universidade. Enquanto ele assistia às aulas, ela esperava no saguão do prédio.
Contou-me que ela era mãe solo, desde que ele tinha cinco anos. O pai, assim que percebeu que o filho não era “normal”, foi embora. Hoje, está casado novamente. O meu objetivo aqui, eu disse a ela, é garantir que o seu filho desenvolva autonomia. Sim, é isso que eu quero, concordou ela. Que bom, eu concordei. Então, preciso que você não fique mais esperando ele no saguão, tampouco, que venha com ele até a universidade.
Como assim? Argumentou ela, com ar de espanto. Assim mesmo: não vindo. Ao longo da conversa eu mudei de assunto. Falei das adaptações que ele gostaria de ter nas aulas, dos sons, da luz, do barulho, das avaliações. No final, perguntei a ela qual era seu maior medo. Ela disse que era morrer, não pela morte em si, mas pelo filho que teria de viver sozinho. “O mundo não trata bem quem é diferente”, disse-me, com o olhar triste.
Então, eu peço que você não venha mais com ele. Deixe que ele experimente este mundo, especialmente, enquanto você está aqui. Permita que ele ande pelo caminho até a universidade, sozinho. Que suba no ônibus, que cuide do horário, que decore os caminhos. Deixe que ele crie suas próprias rotinas. Você gostaria? Perguntei a ele. Olhando para a parede, acenou positivamente com a cabeça.
Eu não vou conseguir, sempre estive com ele, disse-me ela com os olhos cheios de lágrimas. Consegue sim. O seu objetivo, enquanto mãe, é parecido com o meu, enquanto educador. Qual é? Quis saber ela. Queremos garantir que ele, ao final da faculdade, não precise nem de mim e nem de você. Que você seja desnecessária e eu também. Preparar nossos filhos para viverem sem a gente, isto é o que de melhor podemos deixar com eles, sobretudo, quando a gente já tiver ido embora.
Há três semanas eu o vejo chegando à universidade, descendo do ônibus, sem ela. Andando, sem medo e sozinho.





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