Ele desceu do ônibus sozinho – Por Roger Baigorra Machado

Foto Escritor
Roger Baigorra Machado
é servidor público federal, trabalha na com Ações Afirmativas e Políticas de Inclusão na UNIPAMPA. Formado em História e com Mestrado em Integração Latino-Americana, foi presidente do CAC’S  FUNDEB e esteve duas vezes na Direção da UNIPAMPA, como Coordenador Administrativo. Atualmente, ele faz parte do Conselho de Desenvolvimento Econômico de Uruguaiana e do Conselho Municipal de Educação.

Entraram na minha sala. Diante da minha mesa, o filho sentou com a mãe. Ele, silencioso. Ela, preocupada. A mãe contou do filho. Disse que ele tinha autismo, mas que era leve. Lembrou que o filho também tinha dislexia, contou da sua dificuldade em socializar e em demonstrar afeto. Falou que há quatro meses, ela vinha todos os dias com ele até a universidade. Enquanto ele assistia às aulas, ela esperava no saguão do prédio.

Contou-me que ela era mãe solo, desde que ele tinha cinco anos. O pai, assim que percebeu que o filho não era “normal”, foi embora. Hoje, está casado novamente. O meu objetivo aqui, eu disse a ela, é garantir que o seu filho desenvolva autonomia. Sim, é isso que eu quero, concordou ela. Que bom, eu concordei. Então, preciso que você não fique mais esperando ele no saguão, tampouco, que venha com ele até a universidade.

Como assim? Argumentou ela, com ar de espanto. Assim mesmo: não vindo. Ao longo da conversa eu mudei de assunto. Falei das adaptações que ele gostaria de ter nas aulas, dos sons, da luz, do barulho, das avaliações. No final, perguntei a ela qual era seu maior medo. Ela disse que era morrer, não pela morte em si, mas pelo filho que teria de viver sozinho. “O mundo não trata bem quem é diferente”, disse-me, com o olhar triste.

Então, eu peço que você não venha mais com ele. Deixe que ele experimente este mundo, especialmente, enquanto você está aqui. Permita que ele ande pelo caminho até a universidade, sozinho. Que suba no ônibus, que cuide do horário, que decore os caminhos. Deixe que ele crie suas próprias rotinas. Você gostaria? Perguntei a ele. Olhando para a parede, acenou positivamente com a cabeça.

Eu não vou conseguir, sempre estive com ele, disse-me ela com os olhos cheios de lágrimas. Consegue sim. O seu objetivo, enquanto mãe, é parecido com o meu, enquanto educador. Qual é? Quis saber ela. Queremos garantir que ele, ao final da faculdade, não precise nem de mim e nem de você. Que você seja desnecessária e eu também. Preparar nossos filhos para viverem sem a gente, isto é o que de melhor podemos deixar com eles, sobretudo, quando a gente já tiver ido embora.

Há três semanas eu o vejo chegando à universidade, descendo do ônibus, sem ela. Andando, sem medo e sozinho.

7 respostas a “Ele desceu do ônibus sozinho – Por Roger Baigorra Machado”

  1. Avatar de Vlademir
    Vlademir

    Estou, por não ter frequentado uma universidade, encantado com o trabalho e as propostas de progresso a todos, especialmente neste caso!
    Uma proposta de crescimento, de autonomia, de evolução, de uma limitação, prá ganhar o mundo em volta!
    Parabéns!!!

  2. Avatar de Elza Mendonça
    Elza Mendonça

    Boa tarde. Linda essa história. No Instagram li uma frase que dizia, “as mães devem criar seus filhos para viverem sem elas, mesmo que não possam viver sem eles.”

  3. Avatar de Paula Ramos
    Paula Ramos

    Maravilhoso, tenho um sobrinho autista,e a batalha de sua mãe ainda está árdua, está com 16 anos ,mas nos estudos tudo indo bem,e a autonomia necessária está sendo gradativa,é dolorido p ambos,ela sempre me relata,a preocupação, principalmente pelo apego q se desenvolve durante essa batalha.O bom é q existem pessoas, q sabem expor a necessidade do desapego,de ter q deixar cruzar as ruas sozinho, p q saiba olhar p os lados,ver quais esquinas tem q dobrar…Parabéns.

  4. Avatar de NARA REGINA NUNES DA SILVA ARMANI
    NARA REGINA NUNES DA SILVA ARMANI

    Isso mesmo! Acolher dando a confiabilidade e a estrutura necessária para tal. Parabéns pelo trabalho!

  5. Avatar de Patricia Braccini
    Patricia Braccini

    Excelente!! Muitas mães pensam que sendo presença constante estarão ajudando, ledo engano!
    Eles precisam ter autonomia.
    Patricia – mãe da Manuela, Tea com 16 anos.

  6. Avatar de Lucas vaz

    Que história brilhante! Há 4 anos como docente do ensino médio luto com a 2ª professora de sala pela autonomia deles, para que possam sempre descer do ônibus sozinhos. ✔️

  7. Avatar de Cristiane Bittencourt Morari
    Cristiane Bittencourt Morari

    Senti vontade de chorar junto com essa mãe, porque o medo dela é o mesmo meu. A preocupação de: e se ele precisar de mim e eu não estiver junto?!
    Ao mesmo tempo, a tua fala com ela me passou segurança. Vibrei com as conquistas desse aluno, imaginando as futuras conquistas do meu filho.
    O coração ficou quentinho.
    Parabéns pelo teu trabalho e pelo teu olhar.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Redes Sociais

Onde estamos

Postagens Recentes

Ouça Radi-U