Numa manhã dessas fui a um velório. Tratava-se de um amigo de meu pai, conhecido por dedicar-se à família, trabalhador e muito camarada. Ir até aquele velório confessadamente foi um ato difícil em razão dos afazeres da vida.
“Os afazeres da vida”. Pensando bem, naquele momento, bem em frente ao caixão refleti que os afazeres da vida estavam frente a frente com um corpo, sem vida.
A briga mental entre a dificuldade de encontrar um tempo de ir até aquele velório e se concentrar no ato fúnebre entremeio ao “segura da mão de Deus e vai” foi se afunilando a tal ponto que, de repente, tocou o celular de uma pessoa, sendo que os segundos que se seguiram foram de um constrangimento para ela.
O som de um celular no meio de um velório é o demônio chamando, porque imediatamente os mesmos que olharam atravessado para a pessoa dona do celular tocante, se coçam e puxam seus aparelhos e tiroteiam suas mensagens nem lembrando mais do finado.
Eu também entrei nessa, pois o toque do celular foi o momento de reavivar meus compromissos e sair daquela viagem pensante momentânea sobre a morte e lembrar dos afazeres da vida.
A questão é: e quando seu celular tocar e for Deus chamando, o que realmente importará? Não adianta dedicares os melhores anos de tua vida somente aos afazeres da vida, porque se Deus te chamar, alguém fará no teu lugar. A cadeia segue, a vida segue, somos substituíveis nos afazeres, às vezes encontram melhores que nós.
Conciliar os afazeres da vida com os prazeres da vida ou com um mero ato solidário de ir até um velório é missão complicada nas poucas horas do dia, mas é tentável, alguns chamam de ponto de equilíbrio, para mim: uma batalha diária.
Seguiremos tentando, o problema é que, às vezes, Deus não liga, nem manda whats.





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