Ah, tu tinhas dúvida? – Por Tiago Rios Fagundes

ColunaII
TIAGO RIOS FAGUNDES
Engenheiro Agrônomo e empresário.

A diferença entre achar e ter certeza é abissal. Chega a essa conclusão qualquer pessoa que, por desinteresse ou por desesperança, durante anos, ignora a sombra do bode de bom porte que inegavelmente se encontra na sala e, quando sua presença é tão gritante e não há alternativa senão encará-lo, depara-se com a amedrontadora visão do problema que deve ser solucionado.

O Ministério Público de Contas gaúcho (MPC-RS), órgão pertencente à estrutura do Tribunal de Contas do Estado do Rio Grande do Sul (TCE-RS), emitiu seu parecer a respeito das contas públicas do agora ex-prefeito Ronnie Colpo Mello. Um suspiro segue, e a leitura deste é, no mínimo, desconfortável para o pagador de impostos. Parecer desfavorável. “Ah, tu tinhas dúvida?”, poderia dizer um transeunte anônimo caminhando pelo calçadão e a resposta seria sim, tinha dúvidas: agora já temos algumas certezas.

Não vamos nos ater a todo parecer, tratemos do bode maior, o que realmente destoa e preocupa. Foram 84% de alteração da destinação de recursos, segundo MPC-RS, em comparação com o orçamento apresentado pelo Executivo e aprovado pelo Legislativo municipal no ano de 2022. Isso é o mesmo que, em uma empresa privada, fazer um plano de investimentos e, ao longo do mesmo ano, mudar praticamente sua totalidade.   

Descuido? Se dermos o benefício da dúvida podemos até entender que ao longo do tempo é natural que alterações sejam feitas frente às circunstâncias novas que se apresentam sempre, lembremos que estávamos em plena pandemia. Mas 84% de diferença soa bem difícil de ignorar.

Má fé? Esperamos que não, ora, são 8 anos de administração Ronnie, se formos por esse caminho levantaremos a suspeita que, sei lá, pode que tenham criado alguns créditos suplementares para festas populares, ou que faltam alguns planos de gestão e pareceres próprios dos conselhos deliberativos. Ou que alguns dados sobre licitações tenham sido suprimidos do sistema de maneira intencional, ou não atendimento de requisições documentais do próprio TCE-RS, dificultando a fiscalização. Mas quem somos nós pra julgar, o próprio TCE-RS deve fazer seu trabalho. Não há de ser nada, espera-se.

Em tempos de apresentação do Plano Plurianual do Governo Delgado, essas assimetrias orçamentárias não devem passar despercebidas. É a hora do atual governo mostrar “ao que veio” e cabe a nós, espectadores e únicos financiadores desse espetáculo tragicômico, rezar pelo melhor. Vamos arrumar a cama antes de tentar conquistar o mundo? Que tal?

Deus nos defenda.   

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